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42) Aos pés de uma macieira florida


Estive consciente quase todo o tempo em que fiquei paralisada, com exceção das primeiras horas. Despertei quando Adriel encontrou-me, o que só posso agradecer, pois imagino o pavor que teria sentido ao acordar paralisada no silêncio e no escuro, sem saber onde estava ou o que estava ocorrendo comigo. Pelas conversas que tiveram no quarto fui entendendo o que tinha acontecido.

Queria dizer a eles que estava consciente, mas não podia mexer sequer os cílios de um olho e tudo o que pude fazer foi ouvir e torcer para que conseguissem o antídoto. Quando Elros falhou e Adriel falou comigo, tão triste, como se despedindo, pensei que iria mesmo morrer.

Nunca tinha pensado em minha própria morte. Sempre achei que morreria velhinha e neste momento é que não pensava nisto mesmo. Acabara de apaixonar-me pelo anjo mais lindo e doce do universo e descobrira minha avó e toda a estória de meus pais. Não seria justo, pensei.

Senti-me triste por tudo que não viveria com Adriel, os beijos que não daríamos, a vida que não teríamos e também fiquei triste por eles, pelo que sentiriam. Estava chorando por dentro e minha tristeza era tanta que uma lágrima conseguiu furar o bloqueio da paralisia e rolar pela face.

Quando vovó viu e decidiu fazer algo, fiquei apreensiva e quando entendi o que faria, senti medo. Não queria morrer, mas também não queria que ela morresse. Não agora, não justo agora que nos encontramos. Teria impedido se pudesse.

Logo que o veneno saiu, recuperei o controle sobre o corpo, mas forcei-me a continuar imóvel com receio de desviar a atenção de vovó e prejudicar o encantamento. Fiquei olhando por baixo dos cílios sem que ninguém percebesse, mas não consegui conter-me ao ver que caíra e gritei, levantando e indo até ela.

- Vovó! Está ouvindo? Fale comigo. – Ela parecia desacordada, mas estava viva. Abriu lentamente os olhos.

- Maise, querida, você está bem? Deu tudo certo. - Sua voz era fraquinha.

- Vovó! Estou bem, mas e você?

- Está tudo bem, querida. Sou apenas uma velha cansada e agora feliz por ter feito algo pela minha neta e pela minha filha, ainda que ela não esteja aqui. É justo que seja assim. Causei muita dor e agora pude compensar resgatando sua vida.

- Fique quietinha. Não fale. Vamos fazer algo. Descanse. - Olhei para todos que estavam na sala, buscando em algum rosto o que poderia ser feito. Todos estavam sérios e as fadas choravam a um canto.

- Não existe nada a se fazer, Maise. – Era vovó quem falava. – O veneno entrou em mim e ele é muito mais forte agora do que quando entrou em você. Então, apenas escute o que tenho a dizer. É importante.

- Sim, vovó.

- Não tenho tempo para contar toda a estória para você. Depois eles contarão. Agora quero que saiba que quando sua mãe fugiu com seu pai alguns de nós quiseram fechar o Portal entre os dois mundos: Terra e Etera. Eu fui contra porque sempre tive a esperança de que sua mãe retornasse. Moldei a chave do Portal em um medalhão e enviei-o para sua mãe com um encantamento. Assim tinha certeza de que ele somente seria fechado quando ela voltasse. Agora ele é seu e você é a única que pode decidir se ele deve permanecer aberto ou se deve ser fechado. Não deixe que ninguém pressione e ouça seu coração sempre que tiver dúvidas sobre isto.

- Ouvirei. – Eu mal estava entendendo o que ela dizia. Tudo o que pensava era que não queria que morresse.

- Você é a única herdeira de Etera. Sei que nem o conhece ainda, mas é sua herança e faz parte de sua história. Vá até lá, conheça Etera e se puder, se quiser, assuma seu lugar de direito. Confie em Elros para ajudar você em tudo.

- Está certo, vovó. Farei isto, não se preocupe. Descanse um pouco agora. – Eu queria que parasse de falar nestas coisas. Estava fazendo meus olhos arderem, mas não queria que visse minhas lágrimas.

- Só mais uma coisa: sei que ama o anjo e ele ama você de verdade. Adriel é o homem certo para você. Vocês serão felizes, Maise, tanto quanto sua mãe foi com seu pai. Finalmente encontrarei Luna novamente.

- Vovó...

- Você não imagina o quanto desejei isto. Agora ficaremos juntas e estaremos olhando por você. Então, prometa que não ficará triste por mim.

Apenas balancei a cabeça, concordando. Ela olhou-me e sorriu com tanto amor que as lágrimas que eu segurava despencaram sem controle.

Senti alguém puxando-me para cima e era Adriel. Olhei para baixo e o sorriso de vovó continuava igual. Resisti, querendo falar mais com ela.

- Acabou, Maise. Ela se foi. – Adriel apertou-me fortemente contra seu peito ao dizer isto.

Foi tanto zunido na minha cabeça naquele momento que achei bom ele estar apertando-me daquele jeito. Era uma mistura de raiva e tristeza, dor e impotência. Vontade de gritar, chorar, negar, bater, rasgar. E também de acariciar minha avó e continuar ouvindo sua voz e saber por ela todas as estórias de minha mãe e também as dela e de Etera. Vontade de que fosse mentira e que pudéssemos passar muito tempo juntas para recuperar tudo que perdemos. E ao mesmo tempo, sabia que não era possível e que nunca mais seria.

No meio deste caos de sentimentos deixei-me apertar enquanto chorava em seu peito. E ele permaneceu assim, sem dizer nada, abraçando-me e beijando meus cabelos. Em algum momento ele pegou-me no colo e levou-me até a cadeira, sentando-se comigo e fiquei aninhada em seu colo, chorando, até conseguir parar.

Olhei para o quarto. Ninguém mais estava lá. Olhei para ele em interrogação.

- Precisamos ir, querida. Estão aguardando você para falar com os encantados.

Os acontecimentos a partir deste momento permanecem meio esfumaçados em minha lembrança.

Sei que fomos até a sala, onde todos estavam e de lá até o terraço. Ainda era noite e lá embaixo, na praia, centenas de pontos iluminados. Depois entendi que eram as tochas que os encantados seguravam. Elros falou sobre vovó. Não lembro o que disse só que foi muito bonito e que recomecei a chorar. Ele mostrou-me e todos fizeram uma reverência. Em seguida partimos para Etera, levando vovó.

Ela foi enterrada no finalzinho da tarde do outro dia, aos pés de uma macieira florida que era sua árvore predileta e símbolo da imortalidade. Estávamos muito tristes, mas a cerimônia foi bonita e alegre em seu formato, diferente de todas que já havia visto. Etera celebrou sua vida com cantos, poesias, pássaros, flores, música e rituais mágicos. Encantados de todas as partes do mundo vieram prestar sua homenagem à minha avó e se não estivesse entorpecida teria apreciado a profusão de seres tão coloridos e diferentes.

Voltamos ao palácio para um pronunciamento. Tínhamos conversado sobre a necessidade disto. Elros disse que eu era a rainha de Etera agora e é claro que neguei. Não tinha a menor condição de sequer pensar coerentemente, quanto mais ser rainha de um local que não sabia existir a alguns dias atrás. Ele disse que não poderiam ficar sem um governante, alguém sugeriu que ele ficasse como regente provisório e todos concordaram.

Fomos à sacada e ele falou sobre o que havia sido decidido, mas o povo começou a chamar meu nome em coro e não tive opção exceto falar a eles. Não tenho idéia do que falei. Não sabia o que dizer. Nunca tinha falado para uma platéia antes.

Acho que comecei falando sobre como estava triste por minha avó e também que estava feliz por saber que eles existiam e que eles eram uma parte de mim, que aquele lugar também era o meu lugar, mas que tudo acontecera muito rápido e precisava de tempo para assimilar todas as informações. Disse também que vovó pedira-me para confiar na ajuda de Elros, que aquela decisão era a melhor para todos e gostaria que eles o apoiassem em tudo. Disse também que voltaria sempre para ir conhecendo Etera e todos eles com calma. E esperava que um dia eles amassem-me como à vovó.

Eles irromperam novamente o coro com meu nome. Agradeci e voltei à sala.

Adriel estivera o tempo todo ao meu lado, abraçando-me ou pegando em minhas mãos e não sei como teria sido sem sentir sua pele quente em contato com a minha. Sentia-me dependente daquele contato e nos breves momentos em que ele afastava-se por alguma necessidade, ficava sentindo a pele formigar com sua ausência e só tranqüilizava-me quando ele retornava.

Agora que tudo terminara, só o que desejava era estar em minha cabana com Adriel, como antes de sua viagem. Olhei para ele e disse apenas: - Vamos? – Ele entendeu, pegou-me nos braços e saímos voando pela sacada, sob o coro deliciado dos encantados.

Na cabana tudo estava igual. Era estranho porque parecia que anos tinham decorrido desde o momento em que estivemos ali juntos pela última vez. Sentia-me diferente, mais velha e muito cansada.

Senti o peso dos últimos acontecimentos atingindo-me de uma única vez e achei que não seria capaz nem mesmo de chegar até a cama. Adriel parecia entender tudo o que eu sentia e pensava porque me sentou à beira da cama e ajudou-me a colocar o pijama, sem nada dizer. Depois levantou as cobertas e deitamos juntos.

No instante em que abraçamo-nos, deitados em nossa cama, preparados para dormir como fazíamos antes, senti-me inundada pela paz e pela certeza de estar no único lugar do mundo em que queria: nos braços de meu anjo.



Texto registrado no Literar.

Imagem daqui.

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