domingo, 15 de novembro de 2009

13) THE END


Hoje é o dia de meu casamento. Acordei chamando por Adriel, em mais um dos sonhos que me atormentam desde sua morte. Será que Elros está certo e com o casamento eles terminarão? Então porque estava sentindo-me assim, como se estivesse o traindo?

Porque esta tristeza e melancolia no dia em que deveria estar tão feliz?

Passei o trinco na porta do quarto. Daqui a pouco Tana e Niis entrariam e os preparativos começariam, mas antes queria alguns momentos a sós. Afastei o voil da cortina da janela e olhei para Etera.

O entorno do palácio estava enfeitado desde ontem. Tinham limpado os sinais da festa de posse de Elros e Gnom e preparavam agora a festa de casamento. Vi a algazarra de encantados indo e vindo atarefados, fazendo florir árvores e plantas, revivendo o gramado verde, iluminando as cores e mesmo em ocupações mais simples, como a instalação do altar, de cadeiras, da passarela por onde caminharia durante a cerimônia, panos e enfeites sendo afixados e tudo ganhava forma rapidamente.

Voltei o olhar para o quarto e fixei-o no vestido de noiva, próximo ao espelho. Bastou o desejo para que ele estivesse no corpo, meu cabelo arrumado, o rosto maquiado, como seria na hora. Agora que dominava a magia não precisava mais perder tempo com detalhes e ocupações como estas.

Observei-me no espelho. O vestido fora tecido sem costuras, por centenas de bichos da seda sob o comando das fadas estilistas. Minúsculos diamantes incrustados faziam com que brilhasse quando me movia. Era talvez o mais belo vestido de noiva que já existira.

A imagem que via era de uma rainha, uma mulher segura, independente e forte, como de fato tornara-me nestes anos em Etera, sem Adriel. Aprendera a tomar decisões, a assumir responsabilidades, a cuidar de meu povo, a arcar com o resultado de meus atos. Tudo isto estava refletido em minha imagem, desde os ombros aprumados até a cabeça levantada e ereta.

Senti orgulho de mim, naquele momento, lembrando os vários momentos difíceis que vivera e do quanto aprendi com cada dificuldade, cada instante em que tive que recuar e depois retornar por outro caminho. Se Adriel estivesse vivo hoje, tudo seria tão diferente. Nossa estória não teria tido aquele final. Eu não era mais uma menina indefesa e frágil. Hoje estaria ao seu lado, lutando com ele em igualdade e ele não precisaria jogar-se na frente de uma flecha para me defender.

Adriel...

Invoquei minha imagem em nosso casamento em Etera e olhei-me no passado através do espelho. Lá estavam meus olhos brilhantes e ingênuos, cheios de fé, alegria e confiança, sem jamais imaginar o que nos aguardava logo após.

Chorei pela jovem que fora, pelos meus sonhos mortos, pelo amor que tive que sufocar para sobreviver e pelas saudades que me envolveram como uma gigantesca e invisível mão. Senti a faca novamente remexendo-se em meu coração, como deixara de sentir a muito tempo e a sensação foi familiar e boa. Tirei a faca e deixei sangrar. A dor cobriu-me inteira e jogou-me ao chão pela intensidade. Respirar era difícil, mas consegui controlar aos poucos.

Percebi que estava mais viva com a dor do que sem ela. Errei em tentar esquecer Adriel, percebo agora. Ele era a parte mais bela do que sou e quando abafei a dor, desapareci também com meu melhor. Estava errada ainda agora, ao pensar que poderia casar com Elros sem o amar. Não apenas ele não merecia isto, como também eu não merecia e nem Adriel.

Por todos nós, por tudo que vivemos e significamos uns para os outros, devia ao menos ser honesta com relação a meus sentimentos.

Tirei o vestido e abri a porta. Tana e Niis entraram. Fiquei parada, olhando-os apenas, sabendo que estava despedindo-me.

- Menina, porque trancou a porta? Estamos atrasadas já. Vou trazer seu café da manhã. – Tana como sempre falava aos borbotões, mas parou ao observar minha imobilidade.

- Tana, peça a Elros para vir. Preciso falar com ele.

- Minha menina, é o que estou pensando? Tem certeza? – Ela compreendera, com sua formidável intuição.

- Tenho, Tana. Preciso ir, voltar para mim mesma. – Eu disse, já com os olhos úmidos. Sentiria tantas saudades dela. Querida e preciosa Tana! Agradeci em pensamentos todo o amor que me dedicou.

- Oh, querida! Esperava por isto. Nunca acreditei neste casamento, mesmo sabendo que sem ele você nos deixará. – Ela também chorava ao seu modo, com lágrimas invisíveis.

- Vá, Tana. Chame-o. – Não queria uma cena agora. Não antes de falar com Elros. E ela saiu.

- Niis, meu amiguinho.

- Maise, você vai embora? Não vai se casar? – Ele também compreendera, pelo nosso diálogo e seu pequeno rostinho era pura tristeza.

- Venha aqui, meu amor. – Ele veio e sentou-se em meus joelhos. Abracei-o por alguns momentos, sem nada dizer, esperando até que se acalmasse.

- Niis, eu preciso ir. Não posso casar. Não seria feliz. Seria um erro do qual todos nos arrependeríamos mais tarde. Você pode entender isto?

- Você vai voltar? Algum dia? – Perguntou após fazer um gesto afirmativo com a cabeça e controlar as lágrimas o suficiente para falar.

- Lógico que vou, meu amor. Aqui é também minha casa e o único lugar no mundo onde tenho uma família. Amo você como se fosse meu filho, você sabe, não sabe?

- Eu também te amo, Maise. Por favor, volte logo. Vou sentir muitas saudades. – Abraçou-me, enterrando sua cabeça em meu peito.

- Também sentirei, querido. Você tomará conta de Aza até minha volta? Precisa voar com ele sempre. – Ele prometeu, ficando mais feliz com esta ocupação.

Elros entrou e pedi que saísse, fechando a porta. Ele viu os vestígios de lágrimas em meu rosto e através de meu silêncio compreendeu.

- Não haverá casamento, não é?

- Não, Elros. Sinto muito, mesmo. Por favor, desculpe-me por ter deixado que isto chegasse a este ponto. Você não merece este momento, por tudo que já passou em sua vida e por tudo que fez por mim e por Etera, mas se prosseguisse seria ainda pior.

Ele sentou-se na cama e segurou a cabeça entre as mãos, desconsolado. Se eu pudesse fazer algo naquele momento!

- No fundo eu já sabia. Tive esperanças, mas acho que sempre soube. É Adriel, não é? Tem esperança de que esteja vivo e que se encontrem?

- Não e sim, Elros. É por mim, muito mais do que por ele. É o que preciso fazer para voltar a ser inteira. Para estar viva novamente, necessito que ele viva em mim. Ele e eu somos um e este tempo em que neguei isto fui apenas metade de mim, menos do que sou. Mas é também por Adriel. Não sei se está vivo e se nos encontraremos, mas enquanto existir a menor possibilidade de que isto aconteça, tenho que tentar. Entende?

- Sim. Infelizmente entendo e sei que tem razão. Não se preocupe. Vá. Cuidaremos de tudo por aqui e se um dia retornar...

- Eu vou voltar, Elros. Não vou sumir, não vou desaparecer. Prometo a você. Mas...

- Eu sei. Mesmo que volte, não será por mim, não é? Tudo bem. Agora que sou o Primeiro Ministro tem um bando de lindas elfas dispostas a consolar-me. Quem sabe uma delas não ajuda a curar meu coração partido? – Disse, piscando e tentando fazer graça, apesar da tristeza.

- Elros...

- Não diga mais nada, Maise. Vá. Você sabe que na Terra já se passaram 40 anos?

- Como assim? Não foram 4 anos?

- Não. Esqueceu-se de que o tempo em Etera corre de forma diferente e mais lento do que na Terra?

- Mas... Ficarei velha quando sair daqui?

- Você resgatou sua porção etérea agora e assim como todos nós seu corpo deve seguir o tempo de Etera e não da Terra. Não estou bem certo, uma vez que você é metade humana, mas se levar o medalhão no pescoço, nada ocorrerá. Apenas não o retire de seu pescoço enquanto não tiver certeza disto.

Olhamo-nos uma vez mais, sorrindo um ao outro e abraçamo-nos longamente e ele saiu.

Em um canto de meu armário guardava a roupa com que vim para cá. Calças jeans, camiseta, tênis, relógio. Foi esquisito vestir-me novamente com roupas humanas, mas sorri para a Maise mais familiar que apareceu no espelho.

Tana e Niis entraram. Abraçamo-nos os três, juntos. Prometi que mandaria mensagens e que retornaria em breve e minha mão acenava ainda quando desapareci do quarto para reaparecer em frente ao Portal.

Respirei fundo, usei o medalhão para abri-lo novamente, depois de quatro anos fechado e atravessei a abertura, entrando em Portal do Sol.

Senti-me um pouco tonta com a diferença da atmosfera.

- Como é pesado o ar! – Disse em voz alta, lutando para respirar. Assim que consegui estabilizar meus pulmões, olhei em volta. Estava próxima à casa de Adriel e caminhei até a entrada.

- “Escombros praticamente.” - Observei com tristeza o que o tempo fizera à casa que fora tão majestosa ao mesmo tempo em que desativava a barreira mágica.

Caminhei pelo que restava da casa e dos móveis, lembrando de cada momento que
vivêramos aqui. A cama do quarto de hóspedes onde deitou-me na primeira vez, depois de salvar-me da queda da árvore, a mesa onde fiz o jantar romântico. Revivi a sensação daquele primeiro e mágico beijo, de olhos fechados, ouvindo a música em minhas lembranças e acompanhando os passos sem perceber.

Abri os olhos marejados na varanda e desci à praia. Caminhei em direção à cabana, como fizemos tantas vezes, abraçados ou apenas segurando as mãos do outro.

- “Adriel, meu amor! Onde você está?” – Meu coração estava doendo, meus olhos já nem enxergavam direito e começava a duvidar ter feito a coisa certa ao sair de Etera.

Suportaria viver aqui fora sem Adriel?

Lembrei-me da primeira vez em que nos vimos, quando estava sentada à pedra dele e revi sua imagem naquele local, conforme me aproximava da pedra. Recordava-me tão fortemente que era quase como se pudesse vê-lo lá.

Estava delirando ou realmente ele estava lá? Uma pessoa estava mesmo sentada na pedra ou era minha imaginação?

Parei, incerta, com o coração batendo enlouquecido enquanto observava a silhueta ao longe.

- Adriel! – Gritei, enquanto voltava a caminhar em sua direção, cada vez mais rápido. Ele olhou em direção do som.

- Adriel! – Corria agora, com os braços já abertos. Era Adriel! – “Oh, meu Deus, obrigada, obrigada.” – Era só o que conseguia pensar.

- Maise! – Ouvi meu nome dito por ele, pela sua boca amada, enquanto levantava-se e corria também.

Encontramo-nos a meio caminho e abraçou-me levantando-me do chão, enquanto repetíamos o nome um do outro sem parar e nos olhávamos maravilhados.

- Adriel... – Eu ia perguntar alguma coisa, mas ele colocou o dedo em minha boca.

- Psiu. Não fale agora, pequena. – Então me beijou e finalmente estava em casa e em mim.

As lágrimas tornaram-se uma torrente a cobrir meu rosto, pelo alívio que senti por estar novamente com ele.

- Não chore, querida. – Ele beijava minhas lágrimas e todo meu rosto e eu chorava ainda mais com seu carinho.

- Estou feliz demais. Não posso conter.

- Beije-me. – Ele pediu.

Beijei-o de verdade agora, com a boca aberta, minha língua buscando a dele, com uma fome feroz. Ele correspondeu e deixamos que a imensidão das saudades que sentíamos circulasse por elas, ocupando-nos todos por dentro.

Não percebi quando caímos na areia macia, envolvida como estava com a gama de sentimentos que fluíam entre nós, quente e denso hálito.

O desejo de estar nele e senti-lo em mim era insuportável e tirei nossas roupas com mágica, sem poder aguardar mais e quando senti nossas peles uma contra a outra perdi o ar por alguns segundos e também quando tocou e beijou meus seios.

- Adriel, quero você! Agora! – Não poderia esperar mais um único segundo e deitei por cima dele, fazendo com que entrasse em mim, de uma só vez.

- Ah!!! – Soltei um suspiro, com os olhos fechados, sem acreditar que vivi estes anos sem esta sensação, sem o prazer de sentir-me completa, inteira.

Adriel e eu deixamo-nos conduzir pela poderosa onda que surgia de nossa união e que conduzia-nos a uma explosão, lançando-nos em mil direções e ainda assim coesos e unos em um só ser.

Ficamos largados nos braços um do outro por momentos até que voltássemos a Terra novamente.

- Adriel! – Exclamei ruborizada quando percebi que fizéramos amor na praia, à vista de qualquer um que passasse. Ele entendeu meu olhar para o entorno e riu, beijando-me ternamente.

- Sossegue. Ninguém mais vem a esta praia há anos. – Mesmo assim, vesti nossas roupas com mágica novamente, enquanto o olhava atentamente. Ele estava diferente.

- Suas asas! Não tem mais. Nem aquele brilho. Está diferente! É você e ao mesmo tempo não é. – Observava seu rosto. Eram poucos detalhes, mas percebia agora: o desenho da boca, sutilmente mais fina, do nariz, quase nada menor, o tom dos olhos, a cor dos cabelos.

- Querida, sou eu, não se preocupe. É uma longa estória. E você? Como não envelheceu?

- É uma longa estória.

Caímos ambos em risadas, felizes demais para preocuparmo-nos realmente com estes detalhes.

Mais tarde teríamos todo tempo do mundo para sabermos tudo o que ocorrera um com o outro. Agora queria apenas continuar a sentir a magia de sua presença ao meu lado. Olhei-o embevecida.

Adriel, meu eterno amor e eu estávamos juntos novamente após tanto tempo e eu sabia que agora seríamos felizes para sempre.


THE END


...


Trilogia do Anjo – 3° Livro: Adrien

Sinopse

Maise e Adrien casam-se novamente, reconstroem o complexo e com a ajuda dos Elementais, preparam-se para a batalha final contra os demônios e os Elfos Negros.

Ytzar e Eileen são derrotados, seus restos são queimados e suas cinzas espalhadas pelos quatro cantos da Terra, para que não retornem jamais. Os Elfos Negros que sobrevivem entregam-se e decidem viver em paz, após o perdão do casal. Os demônios são capturados e enviados para uma prisão especial.

O portal entre Etera e a Terra é aberto definitivamente. Elementais e humanos começam a viver em harmonia, embora limitado aos habitantes de Portal do Sol.

Maise continua Rainha de Etera, mas Elros e Gnom é que efetivamente comandam o reino, que aproveita as influências do mundo exterior para modernizar-se, sem perder o contato com a magia, que floresce. Elros casa-se com uma elfa linda e completamente apaixonada por ele. Tana muda-se para a casa de Adrien e Maise.

Aisha nasce após cinco anos, filha de um ex-anjo e uma Elemental, com poderes extraordinários e um futuro decisivo para a Terra. Tana, Niis e Aza vivem ao seu redor, protegendo-a, absolutamente cativados pela menina charmosa e mandona.

Adrien e Maise são felizes por toda a vida, até a morte, velhinhos já, com intervalo de poucos meses entre um e outro.

No mundo espiritual, Adrien revê toda sua família de Celes e Maise, sua avó e sua mãe.

Dos céus, dão um último olhar carinhoso para Aisha e todos os que ficaram na Terra e de mãos dadas, brilhantes e com suas asas de anjos, partem em direção à luz, desaparecendo.


THE END

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Texto registrado no Literar.

Imagem daqui.

domingo, 8 de novembro de 2009

12) 40 anos na Terra


Adriel decidiu renascer, por falta de alternativas no momento, mas oito anos se passaram até que isto ocorresse. A falta de um corpo espiritual, de um invólucro para o espírito que era pura energia, dificultava a permanência no útero e vários abortos ocorreram na tentativa de fazê-lo ganhar um corpo físico.

A cada tentativa frustrada era necessária uma pausa para que o corpo dela se recuperasse, mas em compensação Adriel surgia delas com algo, que aos poucos se transformou em um corpo espiritual. Uma camada fina e delicada guardava aos poucos sua energia e somente quando estava completa é que o útero de Michele conseguiu mantê-lo pelos nove meses de gestação.

Nos intervalos entre uma e outra, Adriel retornava a Portal do Sol e prosseguia buscando Maise e Etera, sem qualquer sucesso. Finalmente, 10 anos após os eventos que culminaram em sua morte, Adriel renasce na França, com o nome de Adrien.

Era um bebê fisicamente delicado e Michele e Eliah passaram diversas noites em pronto-socorros e hospitais, velando por sua saúde e rezando pela sua vida. O espírito parecia rejeitar o corpo, ansiando pela liberdade. Graças ao desvelo de ambos, Adrien sobreviveu aos primeiros anos e fortaleceu-se aos poucos, deixando de inspirar tantos cuidados.

Em sua infância, Adrien demonstrava capacidades diferenciadas das demais crianças. Ouvia vozes, via espíritos, tinha sonhos e premonições. Não parecia assustado com estes fatos, mas não gostava tampouco por assustar as pessoas quando contava destes fatos. Com o passar do tempo foi silenciando e tornou-se uma criança quieta e introspectiva, parecendo estar sempre em outro mundo, apesar de aplicado nos estudos.

Por várias vezes perguntou a seus pais sobre uma mulher loira que aparecia em seus sonhos, chorando e chamando por ele. Eliah e Michele tinham decidido não contar nada sobre seu passado, caso ele próprio não recordasse. Sem conseguir ainda nenhuma notícia de Maise, Eliah temia perturbar o desenvolvimento de Adrien com informações que não saberia compreender. Diziam-lhe nada saber sobre a mulher.

Com seu coração doce e meigo, a criança Adrien cuidava dos animais que encontrava feridos ou abandonados e se os pais deixassem traria todos para casa, transformando-a em abrigo. Não podia sair com comida ou dinheiro que acabava por doar aos mendigos e algumas vezes, voltou para casa sem sapatos e agasalhos e foi duro convencê-lo de que não podia doar tudo o que tinha. Convenceu os pais a dar-lhe uma pequena mesada para ajudar os infelizes da rua, e comprava comida, agasalhos, cobertores, remédios e tudo o que necessitassem.

Foi por esta vocação para ajudar os necessitados que o jovem Adrien decidiu-se pela faculdade de Direito quando teve que escolher uma carreira. Como advogado acreditava poder ajudar melhor aquelas pessoas.

Aos 25 anos, formado já, trabalhava com seus pais na empresa de investigação que agora era gigante em sua área, com diversas filiais espalhadas pela Europa. No seu tempo livre criara e cuidava de uma organização sem fins lucrativos de ajuda aos necessitados e ele próprio advogava sem cobrar para vários deles.

Era um jovem alto e bonito demais. Eliah e Michele sabiam que era muito parecido com Adriel, com os cabelos escuros e apenas os olhos eram de um verde mais escuro. As mulheres apaixonavam-se à primeira vista, mas nunca ele interessou-se por qualquer uma delas.

Adrien nada mais dizia sobre seus talentos extra-sensoriais, parecendo mesmo não tê-los mais, mas Michele sabia que à noite ainda sonhava com ela, porque escutava quando dizia seu nome e acordava aflito. Nos dias após estes sonhos ele permanecia ainda mais calado e introspectivo.

Em um final de semana foi com os pais a uma exposição de arte contemporânea, com amostra de artistas de todas as partes do mundo. Estavam caminhando e conversando enquanto apreciavam pinturas e esculturas quando Adrien parou frente a um quadro. Eliah e Michele reconheceram Maise retratada pelo pai.

Adrien parecia hipnotizado pela imagem, aproximando-se o máximo que pode e tocando-a.

- Maise. – Disse seu nome e em seguida desmaiou.

Não conseguiram despertá-lo e foi encaminhado ao hospital onde passou dias entre a inconsciência total e parcial, febril e confuso, dizendo coisas incompreensíveis. Os médicos diziam estar em choque pós-trauma. Seus pais sabiam o motivo, mas nada podiam dizer ou fazer, exceto aguardar.

Quatro dias depois a febre cedeu e recobrou a consciência. Olhou para seus pais e disse:

- Maise. Vocês sabiam o tempo todo e não me contaram. Por quê?

- Adrien, desculpe. Procuramos por ela durante todo este tempo sem encontrar o mínimo vestígio. De que adiantaria contar? Para que sofresse mais? Você recorda tudo de sua vida anterior?

- Não tudo. É um pouco confuso e embaçado. Lembro dos fatos principais apenas. Vocês tinham que ter contado. Agora tudo se encaixa. Entendo tudo: os sonhos, seu choro e tristeza, minha melancolia. Minha vida ganhou um sentido. Vou a Portal do Sol.

- Adrien, meu filho. – Era Michele quem dizia, chorando. – Não há mais nada lá. Exceto as construções fechadas e abandonadas. Vai sofrer com a decepção de não encontrá-la. Esqueça isto. Sua vida agora é aqui.

- Mamãe, você sabe que nunca consegui interessar-me por nenhuma mulher, sempre obcecado pelo rosto de meus sonhos. Preciso ir. Maise está viva, eu sei. Ela vai ao meu encontro.

- Mesmo que vá, Adrien. – Eliah ponderava agora. – 35 anos se passaram desde aquela época. Maise estaria com mais de 60 anos já, enquanto você é um jovem. Como seria possível?

- Não importa. Nada importa que não seja voltar a vê-la. Ela precisa saber tudo o que aconteceu. Não conseguirão demover-me.

Uma semana após, Adrien estava em frente aquela que fora sua casa em outra vida. Não conseguiu entrar, pois estava fechada e compreendeu que também uma barreira de magia a protegia. Caminhou pela praia, recordando-se de todas as vezes que fizeram o mesmo trajeto juntos e em frente à cabana quase podia vê-la, tão bela e radiante de juventude e alegria. Chorou de saudades, sentado aos degraus e surpreso, descobriu que a barreira na cabana era mais fraca do que na casa. Após forçar um pouco, conseguiu abrir a porta e entrou em seu interior.

Tudo permanecia igual, com os móveis cobertos por lençóis cheios de pó. Ali estava a cama onde dormiram tantas noites juntos, a cadeira de ursinhos que lhe dera e a mesa onde fizera tsurus velando por seu sono e tantas outras recordações.

Foi à vila e descobriu que Antônio falecera há poucos anos e que a cabana estava abandonada. Decidiu ficar nela enquanto estivesse em Portal. Limpou todo o pó e ali esteve por 15 dias, sem conseguir qualquer notícia de Maise.

Voltou para a França, decidido a desenvolver suas capacidades e aprender o que pudesse sobre magia. Somente poderia encontrar Maise e Etera através da magia, sabia disto.

Nos próximos anos reuniu informações, freqüentou seitas e organizações religiosas, mágicas ou místicas em busca de um encantamento que abrisse um portal entre seu mundo e Etera. Não houve nenhum que realmente funcionasse, mas acabou por encontrar informações sobre Ytzar e seus demônios e aliou-se a um grupo dedicado a combatê-los.

Aprendeu a lutar com diversas armas, físicas e mágicas e transformou seu próprio corpo em uma arma que poderia ser letal em uma luta. Desde o momento em que resgatara seu passado, soubera que voltaria a encontrar-se com Ytzar e queria estar preparado desta vez.

Uma vez por ano retornava a Portal do Sol e ali ficava por 15 dias, sozinho na cabana, lembrando e chamando por Maise.

Cinco anos haviam se passado desde que recordara de sua vida passada, 40 anos desde sua morte. Adrien tinha agora 30 anos. Maise estaria com 65 anos.

Sentado em sua pedra na praia de Portal do Sol, Adrien imaginava como seria seu rosto, envelhecido, sentindo-se encher de ternura por ela.

A saudade queimava-o a cada dia, mas hoje era particularmente forte e ele não ficou surpreso quando as lágrimas começaram a rolar por sua face.

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Texto registrado no Literar.

Imagem daqui.

sábado, 31 de outubro de 2009

11) 4 anos em Etera



1° ano:

Após assumir o trono e ser coroada Rainha de Etera, começa a conhecer os Elementais, visitando-os ou sendo visitada por eles, inteirando-se de seus problemas, forma de vida e necessidades. Descobre que cada grupo tem ressentimentos com os outros, mas principalmente com Gnomos e Elfos. Os primeiros são alvos de preconceito e tentativa de escravização e os segundos acusados de privilégios acima dos demais. Existem também rixas por áreas de terra maiores, em que um grupo acusa o outro de ter apropriado de área do outro. Percebe que os pequenos seres são tão ou mais humanos do que os próprios humanos, com seus defeitos e qualidades amplificados. Ela tenta resolver alguns destes conflitos, mas acaba por perceber que quando mais interfere, pior fica e desespera-se. Ao final do primeiro ano, sua autoestima é baixa e considera-se um fracasso como rainha.

Maise ainda chora todas as noites com saudades de Adriel. Embora sinta que ele está vivo, não sabe onde está ou porque não a procura. Em algumas noites sonha que ele a chama e deseja sair de Etera e partir em sua busca, mas Tana e Elros acham que se ele estivesse realmente vivo iria a Etera em sua busca e que os sonhos são frutos de sua saudade, apenas. Envolvida com todas as questões internas do Reino, ela vai ficando e adiando o retorno.

Começa seu treinamento como Elemental tendo aulas para criar asas, mudar forma e tamanho, usar seus poderes e aprender encantamentos. É um fracasso em todas as disciplinas. Simplesmente não consegue evoluir em nada e questiona mesmo se algum dia conseguirá realizar até mesmo o mais simples encantamento. Seus professores não entendem o motivo da falta de evolução, uma vez que o potencial é visível para todos. Frustrada e aborrecida, acaba por desistir das aulas, permanecendo apenas como humana.


2° ano:

Aos poucos o choro foi silenciando, embora a dor e as saudades ainda sejam fortes. Uma noite ela não chora e quando Elros chega e a vê comendo sem chorar, convida-a para tomar o café à varanda e conversam um pouco sobre assuntos leves. Depois deste dia, tornou-se um ritual encerrar as noites desta forma e uma agradável cumplicidade estabelece-se entre ambos. Ainda que em algumas noites ela tenha recaídas e chore, os espaços vão se alargando.

Trocam idéias sobre Etera, Maise conta sobre a forma de vida do mundo exterior e de coisas que Elros sequer imagina existir como lugares, acontecimentos, tecnologia e principalmente formas de governo. Ele tem muito interesse em política e aos poucos a idéia de transformar Etera em uma democracia vai instalando-se em suas conversas. Maise gostaria de modernizar o reino em muitos aspectos e aquele parecia ser o ponto inicial e principal, uma vez que ela não tem filhos para que sejam seus herdeiros e não pensa em casar-se novamente.

Conversam também sobre Adriel e os sonhos de Maise. Ela se convence de que são apenas fruto de seu inconsciente e das saudades que sente. Aos poucos a lembrança não a machuca mais e consegue lembrar-se dele apenas com carinho, sentindo alegria por ter vivido aquele amor e acalentando-o em seu coração.

Em uma noite são surpreendidos por um ataque dos Elfos Negros que conseguiram entrar em Etera através de um portal negro mágico. Elros defende-a, mas são muitos e ela é raptada em meio à luta. Apesar da desconfiança de muitos de que Elros tivesse participado do rapto por ser o único a presenciar a invasão, os Elementais unem-se e conseguem resgatar Maise, com a ajuda desta que consegue utilizar seus poderes novamente, explodindo Nigro.


3° ano:

O Povo Encantado acusa Elros de ser aliado dos Elfos Negros e sua situação como segundo em comando é questionada. Um julgamento é realizado e ele é absolvido pelo conselho dos anciões por falta de provas, embora a desconfiança permaneça.
Maise é leal a Elros, mas a situação piora e preocupada com o clima de animosidade e com possíveis novas invasões, decide fortalecer Etera. Todos iniciam aprendizados voltados à defesa e à luta, armas são fabricadas e encantamentos desenvolvidos. Unidos em um objetivo comum a situação fica um pouco mais estável, embora os conflitos entre grupos permaneçam.

Ela retoma as aulas e desta vez com grande resultado. Em pouco tempo já é capaz de voar, transportar-se, ficar invisível, crescer, diminuir, assumir outra aparência, invocar encantamentos e principalmente a projetar seus sentimentos em uma área cada vez maior.

Os sonhos com Adriel tornam-se constantes e cada vez mais intensos. Maise quer sair de Etera, mas não pode deixar o reino neste momento. Decide convocar eleições e estabelecer um novo governante eleito por todos. Um pleito rejeita sua decisão. Não querem que deixe de ser Rainha, mas acabam por aceitar a idéia de uma Monarquia Parlamentarista. Maise continuará a ser Rainha, mas um Primeiro Ministro será eleito.


4° ano:

Eleições são marcadas para dali a alguns meses. Elros representa os elfos e Gnom Knur os Gnomos e os demais grupos lançam seu candidato. Começam as campanhas e os conchavos. Grupos unem-se para enfrentar a maioria dos dois grupos principais formados pelos elfos e gnomos.

Mais uma vez vêm à tona as acusações a Elros, que é o favorito. Ele não tem como provar sua inocência e Maise não sabe como ajudar o amigo.

Uma noite conversam e ela está entristecida pelas dúvidas sobre o caráter do amigo. Gostaria de deixá-lo no governo quando sair de Etera em busca de Adriel. Ele diz que seus sonhos continuam porque ela não se envolveu com outro e declara-se apaixonado. Implora por uma chance e pede-lhe que case-se com ele, pelo bem de Etera e pelo seu.

Maise aceita e o casamento é marcado para logo após as eleições. Os sonhos com Adriel são cada vez mais intensos e perturbam-lhe muito. Ela tem esperança de que parem com o casamento e assim alcance alguma paz. Acha que poderá amar Elros com o passar do tempo e lembrar-se de Adriel apenas como uma lembrança bonita.

A poucos dias da eleição, um grupo formado por vários pequenos grupos une-se a Eileen, com quem entram em contato através de um encantamento mágico. Trazem-na para Etera, acreditando que deporá contra Elros, mas ela quer apenas matar Maise e só não consegue por Elros e Gnom que intercedem no momento em que está com um punhal a centímetros da garganta de Maise.

Derrotada, ela confessa a inocência de Elros e o assassinato dos pais de Maise antes de desaparecer em um portal criado por Ytzar.

O povo clama por Elros e Gnom e os dois unem suas campanhas, decidindo trabalhar juntos no novo governo. Elros promete aos gnomos que se for eleito, acabará com os preconceitos e que gnomos e fadas terão sempre os mesmos direitos. Apoiado por elfos e gnomos, é eleito Primeiro Ministro com votação esmagadora. Niis está radiante de felicidade.

Uma grande festa é marcada para a posse de Elros como Primeiro Ministro e de Gnom como seu vice. O casamento será um dia após.


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Texto registrado no Literar.

Imagem daqui.