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46) Elros


Elros recebeu-nos de forma muito gentil na entrada do palácio. Ele era realmente bonito, com cabelos claros, quase brancos e olhos tão verdes quanto os de Adriel. O rosto e o corpo tinham uma ossatura agradável, suave e algo nele parecia um pouco melancólico.

- “Também pudera, coitado, dois noivados infelizes.” – Ponderei, lembrando-me de ser cuidadosa ao tocar nestes assuntos.

Passamos pela sala de jantar, com uma mesa imensa e vazia.

- Prefiro usar esta sala apenas em eventos mais formais. Sinto-me oprimido aqui. Incomodam-se em almoçarmos na Pequena Copa?

A Pequena Copa era uma sala de almoço íntima, próxima à de jantar, com uma mesa redonda de 6 lugares, agradavelmente decorada e com grandes janelas com vista para as árvores.

- Absolutamente. – Eu disse. – Aqui está ótimo!

Iniciamos o almoço falando sobre nosso casamento e a lua de mel. Não pude deixar de notar que a expressão de melancolia aprofundou-se e não me contive:

- Você está triste, Elros?

- É assim tão evidente? Perdoem-me. Creio que não superei totalmente os últimos acontecimentos.

- Eileen?

- Sim. Ela também. Foi uma grande decepção. É lógico que conhecia seu temperamento, mas tinha esperanças de que melhorasse com nossa convivência. Agora percebo que nutria uma inveja patológica por Luna e desejava tudo que era ou seria dela, o trono e eu incluso.

- Você a amava? – Eu tinha que saber.

- Não sei. Acho que não. Veja, crescemos juntos, Luna, Eileen e eu. Ela era uma alma perturbada e fazia contraste para destacar ainda mais a serenidade e paz de Luna. E eu ficava no meio, tentando ser imparcial. Luna e eu éramos amigos e nem sei como viramos noivos. Acho que mais porque era um sonho almejado pela rainha e queríamos agradá-la. Não que não gostássemos um do outro, mas não desta forma. Quando ela apaixonou-se por Artur, apoiei, mas ela tinha medo de decepcionar a mãe. Acabou fugindo e teve toda esta separação por tantos anos.

- E você aproximou-se de Eileen.

- Já havia aproximado-me antes. Quando a Rainha pediu que saísse do castelo e fosse viver na vila, pediu-me para ficar de olho nela. E por pior que Eileen fosse, era triste ver como sentia-se humilhada e fora de seu lugar entre nós. Eu era o único com quem ela interagia de uma forma mais sensata. Ela parecia precisar de mim realmente e acabei envolvendo-me. Se isto tudo não tivesse ocorrido teríamos nos casado.

- E agora? – Noivo de uma por amizade e de outra por compaixão. - “Que homem seria aquele?” - Pensei comigo mesma.

- Ah, não sei. Não consegui digerir tudo. Gostava muito da rainha Selena. Sinto sua falta, muito mais do que a de Eileen. Às vezes não consigo acreditar. E agora tenho estas funções à mais, o reino inteiro para cuidar e todos estão tão chocados quanto eu e esperando para saber em que direção iremos.

- Como assim?

- Sobre o Portal. A velha discussão foi reaberta agora que a chave voltou a Etera. O povo está dividido entre os que querem que seja fechado e os que desejam que permaneça aberto.

- Vovó disse que somente eu posso decidir sobre este assunto.

- Sim, o que não impede que o povo fale sobre o assunto e manifeste sua vontade.

- Lógico. O que você acha, Elros?

- Ambos os lados têm seus argumentos e sua razão. É mais uma questão de decidir se as vantagens superam as desvantagens em cada opção. Pessoalmente gostaria que o Portal fosse fechado por um tempo. Estamos fragilizados. Os Elfos Negros podem atacar-nos a qualquer momento e caso aliem-se aos demônios seremos devastados.

- E porque eles atacariam Etera? O que vocês têm que eles possam querer? Ou seria apenas alguma questão de vingança?

- Vingança também, mas fundamentalmente gostariam de ter o domínio de Etera e dos encantados para usar nossos poderes e o controle do tempo.

- Já ouvi falar sobre o tempo em Etera ser diferente do tempo da Terra.

- Sim. Aqui o tempo passa mais lentamente do ponto de vista dos humanos. Para nós um dia é um dia, mas na Terra teria transcorrido uma hora, se tanto. Existem muitas possibilidades de uso deste recurso.

- Acredita que eles o fariam? Que estão prestes a atacar Etera?

- Acho que existe esta possibilidade, Maise. Eileen está com eles agora entregando todos nossos segredos. Se ela quer o trono de Etera, se não abandonou este desejo, irá instigá-los.

- O Portal não pode ser fechado agora. Eu vivo na Terra. Posso descender dos encantados, mas sou humana e é lá que moro. Estou para me casar, vou ausentar-me por quase um mês e no retorno morarei com Adriel em Portal do Sol. Quero transitar livremente entre ambos. Não posso perder o contato com vocês agora que os encontrei. Se o Portal for fechado e eu ficar de fora, não poderei voltar.

- Vocês poderiam viver aqui.

- Impossível. Adriel tem seu trabalho no complexo, viaja por toda Terra para contato com os líderes. E eu não estou preparada para abandonar tudo o que conheço. Talvez algum dia, no futuro.

- Transmitirei sua decisão ao povo. Ao menos o falatório cessará.

- Quando voltarmos da viagem discutiremos as possibilidade de defesa para Etera. Adriel pode ajudar-nos com isto, não é? – Ele permanecia calado durante nossa conversa, apenas ouvindo.

- Lógico que sim. De imediato pedirei que a camada de proteção que nos deixa fora do alcance dos demônios seja reforçada e colocarei alguns de meus auxiliares vigiando o Portal, juntamente com sua guarda. São medidas paliativas que no máximo retardarão algum ataque. O ideal é mesmo que Etera desenvolva defesas mais estruturadas, mas isto requer algum tempo para estudo, instalação e treinamento. Terá que aguardar nosso retorno. – Adriel parecia mesmo envolvido.

- Obrigado. Discutirei com Gnon sobre um plano de defesa provisório. Tentaremos fazer o melhor. – Elros parecia um pouco mais aliviado com a perspectiva de ajuda em nosso retorno.

- Elros, Tana terá o número de nosso celular e poderá chamar-nos imediatamente caso seja necessário. Fale com ela, combinado? – Adriel ofereceu.

- Agradeço novamente, mas espero não ser necessário. Para onde vão?

- É uma surpresa para Maise. Ninguém sabe ainda. – Droga! Estava roendo-me de curiosidade e pensei que ele soltaria sem querer.

- Bem, espero que se divirtam. Aqui está tudo praticamente pronto para a cerimônia. Vão mesmo seguir o ritual wicca?

- Sim. Adoramos toda a simbologia. Amanhã vamos casar na igreja de Portal e depois de amanhã aqui. Teve que ser assim. Não tinha como reunir ambos os grupos em uma mesma cerimônia. – Expliquei.

- Aliás, amor, temos que ir. Meu pessoal de Celes já deve estar chegando. – Adriel lembrou-me.

- Ah, é verdade. Só mais uma questão, Elros: existe mesmo certa rixa entre os elementais com asas e os gnomos ou foi uma impressão minha?

- Não foi uma impressão. Os gnomos foram vistos como uma raça inferior no passado. Hoje em dia este assunto está mais bem resolvido ainda que, infelizmente, o preconceito de alguns permaneça. A rainha suavizou bastante o tratamento que recebem, mas é difícil dissolver séculos de idéias arraigadas.

- E o que você pensa a respeito?

- Aprendi a conhecer e a valorizar os gnomos, principalmente por conta de minha proximidade com Gnom. Gostaria que esta separação idiota não existisse, mas existe e não adianta tentar resolver à força. Temos que avançar devagar.

- Elros, este será mais um tema para discutirmos. Prometo que dedicarei boa parte de meu tempo aos assuntos de Etera tão logo retorne. Agora temos mesmo que ir. Pode desculpar-nos?

- É claro que sim, Maise. Cobrarei sua promessa, não tenha dúvidas. Toda ajuda será bem vinda. E agora, vão. Encontramo-nos depois de amanhã no casamento.

Saímos apressados. Elros pareceu-me realmente sincero e totalmente dedicado aos assuntos de Etera. Que triste isto dos dois noivados.

- “Tomara que encontre logo uma elfa para chamar de sua.” – pensei, desejando que fosse tão feliz no amor quanto eu era.

Abracei meu anjo, ansiosa pelo amanhã.



Texto registrado no Literar.

Imagem daqui.

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