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4) Adriel

Aguardei na varanda que ficasse mais claro e a trilha íngreme que levava a praia estivesse visível. Desci então para minha caminhada até a pequena enseada.

Estava já há poucos metros quando vi uma mulher sentada em minha pedra habitual.

“Talvez uma turista.” – Cogitei, estranhando o inusitado da hora. Eles não costumavam enfrentar a estrada escura para estar aqui ao amanhecer e era por isto que gostava daquele horário.

Ao me aproximar vi que era jovem ainda, talvez uns 20 anos, cabelos curtos cacheados, cor de ouro velho. Ocupava metade do espaço que meu corpo na mesma pedra. “Pequena demais!” – Sorri com a comparação.

Não querendo assustá-la chutei algumas pequenas pedras para a água e o ruído mínimo foi suficiente para que se virasse em minha direção, com o olhar inicialmente vago e desfocado.

Um raio de sol tocou parte dos seus cabelos iluminando seu rosto o suficiente para que visse grandes olhos de um azul intenso, nariz pequeno e fino e boca rosada.

"Delicado e proporcional" - Pensei e notando também uma leve expressão de angústia, sorri simpaticamente para parecer inofensivo, fazendo um movimento discreto de cumprimento com a cabeça.

Acompanhei o despertar de seus olhos ao mesmo tempo em que a boca foi abrindo em uma reação de espanto e susto. Quando continuou a abrir de forma preocupante, perguntei-me se havia algo errado comigo. Olhei para meu corpo e aparentemente tudo estava certo. Calças jeans, camiseta clara e sandálias de couro. As asas estavam imateriais no momento. Nada errado, certamente.

Minha forma humana era de um homem alto, corpo bem modelado, com cerca de 30 anos. Era para ser considerado comum, mas em conjunto com meu rosto... Tentando tirar um pouco um pouco da “cara de anjo” que teria com nossos tradicionais cabelos dourados e encaracolados consegui fazer cabelos pretos, lisos e meio bagunçados, mas ao invés de ajudar, piorou, destacando meus olhos verdes e até a boca parecia maior e mais cheia do que já era.

“Realmente não foi uma boa idéia.” – Pensei, ainda que ela não parecesse surpreendida com minha aparência e sim assustada e até mesmo apavorada quando levou uma das mãos à boca emitindo um “ohhh”. Então se levantou apressada e saiu em corrida desabalada para a trilha, sumindo antes que tivesse condições sequer de me mexer.

Fiquei apenas com a recordação de seu corpo pequeno e ágil desaparecendo na trilha como um fantasma.

Sentei em minha pedra agora vazia, mas não consegui entrar em meu estado de concentração habitual. Não costumava prestar tanta atenção em humanos, não mais do que o necessário apenas, mas estava intrigado com ela. Quem seria? O que estaria fazendo aqui neste horário? Voltaria amanhã?

Esta questão preocupava mais que as outras. Necessitava deste ritual diurno e jamais seria capaz de me energizar corretamente na presença de humanos. Senti-me desconfortável com a possibilidade de perda de meu local até então exclusivo.

Gostaria de ir atrás dela e ter a resposta para minhas dúvidas, mas lembrei do quanto ficara assustada e achei que não seria uma boa idéia. Por que se assustou tanto?

Imerso nestes pensamentos, fiz o caminho de volta, alheio agora à beleza da paisagem.



Texto registrado no Literar.

Imagem: Eduardo Verastegui

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