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Nuvens



Fui pescar nuvens.

Sabia que era proibido já há algum tempo, mas me assaltou a vontade, assim, de repente, irresistível.

Lembrei de seu sabor tão leve quando assadas ou tão crocantes quando fritas, senti a saliva inundando o céu da boca, cheguei até mesmo a sentir, juro por Deus, o cheiro. Ah... O cheiro de nuvens frescas!!! Sutil, delicado, sofisticado. Quando você cheira uma nuvem recém pescada, não tem cheiro algum. Basta levar à cozinha, cortar em cubinhos ou simplesmente abrir para assar ou cozinhar e o cheiro inicia a soltar-se, despregar-se, subindo em redemoinhos, direto ao cérebro. E como nos envolve. Entorpe, amolece, sei lá, só sei que é bom demais!!! Seria capaz de matar por aquele cheiro, que lógico, só desperta o desejo de comer. Então você cozinha rapidamente, antecipando o prazer, e, quando come e sente-as derretendo na língua percebe que poderia morrer naquele momento e que estaria tudo bem, morreria feliz.

Costumo comer escondido. Sei que é feio. Mas nisto sou egoísta. Quando pesco nuvens, escondo de filhos, mulher, mãe, amigos, de todos. Tranco-me, de madrugada, na cozinha. Eu mesmo limpo, preparo e depois, absolutamente só, delicio-me. Por mais que tenha não me contento. Nuvem não satisfaz, sempre deixa uma vontade de mais.

Mas isto são reminiscências, lembranças, porque desde que foram proibidas, o que já tem um bom tempinho, não pesquei e nem encontrei para comprar. Acho que lá vai uns bons 3 ou 4 anos.

Hoje, de repente, bateu esse desejo de ex-viciado. Irresistível. Peguei minha vara e fui pescar nuvens.

Na beira do rio tem uma tabuleta enorme, branca, com letras vermelhas: “Proibido pescar nuvens”. Olho ao redor. Ninguém. Dane-se. Escolho um local, sento-me encostado a uma árvore e jogo a linha. Enterro o chapéu nos olhos e aguardo.

Não preciso esperar muito. Depois de tanto tempo sem pesca, o rio estava repleto delas. Logo uma mordeu a isca. Grande, imensa. Deu trabalho, mas consegui tirar da água. Linda... Branquinha, toda fofa... Beleza.

Foi quando ouvi o apito e vi o guarda vindo em minha direção. Avaliei rapidamente a situação. Ele estava muito longe para ter visto. Escondi-a no peito, por dentro da camisa. Foi preciso alguma lábia e uns tostões, mas consegui o convencer de que estava pescando sem isca, apenas como terapia de relaxamento.

Conseguira minha nuvem! Fui para casa delirante. Ainda era cedo. Teria que aguardar umas 6 horas até que a casa toda se aquietasse e pudesse ter a cozinha só para mim.

Minha mulher, aliás, estava preparando o jantar. Carne, legumes, coisa de todo dia. Sorri, beijei e tamborilando os dedos no balcão respondi à puxada de papo sobre assuntos triviais, louco por um momento de solidão, para tirar a nuvem do peito e a esconder no armário, numa parte que ela nunca mexia.

E este surgiu dali a pouco quando o bebê chorou na sala e ela foi acudir. Corri ao armário, guardei a nuvem e estava fechando as portas quando esbarrei num pote de chuva que estava mais à frente e que caiu por sobre outros, fazendo um tremendo barulho, que a trouxe de volta, correndo, afoita por ajudar.

Afastou-me com aquele jeito que as mulheres têm de afastar os homens de seus domínios, tão rápido que nem sei como foi. Só sei que me vi ao lado e ela em frente ao armário, e... à nuvem. Exclamou, surpresa. Tirou-a para fora e me inquiriu com os olhos.

A única coisa que eu pensava é que era minha, toda minha e que não a dividiria com ninguém, nunca, jamais. Não pensei em explicar a coisa toda. Só sentia o desespero de tirar a minha nuvem de mãos alheias. Precisava sentir a segurança de ser minha novamente, só minha!!!

Peguei-a de suas mãos e guardei novamente em meu peito. Sei que fui infantil, devo até mesmo ter sido ridículo, como uma criança de quem tiram um doce e que se desespera, mas era exatamente assim que me sentia naquele momento.

O problema é que não apenas minha esposa estava grávida como era tão maluca por nuvens quanto eu, se não fosse mais. Bem... E quem, afinal de contas, não é doido por nuvens? Estou para conhecer.

Ela também não devia estar raciocinando como a esposa calma e equilibrada que era, pois que também nada perguntou, nada falou e apenas avançou sobre meu peito rasgando com as longas unhas minha camisa e pegando a nuvem.

Consegui agarrar uma ponta um segundo antes que esta saísse completamente de meu poder. Puxamos ambos, cada um para um lado e a nuvem - com a pressão - desmanchou-se. Observamos impotente ela se transformar, rapidamente, em uma poça no chão.

Nunca senti tanto ódio de um ser humano como senti naquele momento de minha mulher. Poderia a ter estrangulado, ali mesmo, naquele momento.

Consegui um mínimo de autocontrole que me permitiu abrir a porta e sair.

Nunca mais voltei.

...

Escrevi este conto em 2002 e o dedico hoje para minha irmã Tamar e para minha amiga Índia.

Um final de semana com muito sol e boas nuvens para todos! :D



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