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9) Beleza de Perdição


Quando entrei no carro estava curiosa para saber como ele encaixaria aquelas asas enormes e o corpo ao mesmo tempo no assento, então fiquei observando. As asas atravessaram o encosto do banco e o assento, parecendo imateriais.

- Uau! – Soltei sem querer. Ele virou-se para mim.

- O que foi? - Interrogou.

- Suas asas atravessaram o encosto, ao contrário de seu corpo. Como faz isto? – Expliquei e perguntei ao mesmo tempo.

- Você vê asas em mim? – Ele pareceu chocado e ao mesmo tempo preocupado.

- Sim. Enormes e muito brancas. E você brilha também. – Acrescentei rápido.

- Dizem que artistas têm uma mente extremamente fértil, mas asas??? – Ele tinha demorado alguns segundos para dizer isto.

- Está insinuando que imagino as asas? E o que diz disto? – Estendi a mão para tocar as penas mais próximas. Meus dedos atravessaram o branco como se não existissem. Tentei pegá-las mais algumas vezes. Nada!

- Isto o quê? – Ele disse tentando não rir.

- Pare! Não posso tocar, mas estou vendo. Você sabe que estou dizendo a verdade! – Exclamei, mas não havia nada a fazer realmente. Não podia provar que existiam. Tinha certeza do que estava vendo e hoje estava descansada e tranqüila. Não poderia culpar um hipotético stress por esta visão. Mas, será que existiam mesmo? Estava começando a duvidar. Ninguém as via e seu dono estava negando existirem.

- Hum rum. - Ele concordou como se não quisesse discutir com alguém que via asas.

- “Droga! Será que estou mesmo imaginando coisas?” – Pensei sem saber mais o que dizer.

- Foi por isto que saiu correndo naquele dia?

- Foi. Pensei que era um Anjo da Morte que estava vindo para me levar ou que já tinha morrido

- Hahaha! – Ele riu com gosto sem conseguir mais se conter. Cruzei os braços no peito, furiosa, com vontade de estapeá-lo. Ele estava tentando se controlar e afinal conseguiu.

- Desculpe. – E piscou para mim. – Deve ser mesmo assustador ver um Anjo da Morte caminhando em sua direção – O canto de seus lábios tremeu com a risada presa. Não conseguiu por muito tempo e acabou rindo novamente. Fiquei olhando, tentando manter a raiva, mas era difícil. Seu riso era muito contagiante e estava quase rindo junto.

- Desculpe novamente. – Disse quando conseguiu parar, enxugando os olhos com as mãos. – Você falou algo a respeito de brilho?

- Não vou dizer mais nada. Você vai rir novamente.

- Certo. Esquecemos este assunto então? – Propôs.

- Por enquanto. – O que podia fazer? Continuava vendo suas asas e seu brilho. Não era ofuscante, de cegar, mas estava lá. Uma luminescência branca, por vezes prateada, como se uma nuvem de minúsculas lâminas destas cores o envolvesse. Era diferente e bonito. As pessoas deviam ser todas luminosas assim. Sorri ao imaginar um mundo colorido, cada um com sua nuvem.

Ele deu partida no carro e saímos devagar pela estrada já um pouco escura. Postes esparsos distribuídos ao longo do caminho não o iluminavam completamente.

- Antônio fez bem em pedir a você que me levasse. – Estava contente mesmo. Não apenas por isto. Tirando esta coisa das asas e do brilho era ótimo não estar só. E melhor ainda que fosse ele ao meu lado. Aproveitei que estava concentrado dirigindo para observar quietinha, sentindo o calor agradável que vinha de seu corpo e aquela beleza irreal.

Seus cabelos eram pretos e bagunçados. “Devem ser macios como nuvens” - Pensei. A pele tinha uma tonalidade diferente, branca e suave. Não parecia pele de verdade. Mesmo que não fosse transparente e parecesse ser sólida, achei que afundaria se a tocasse ou que minha mão atravessaria para o outro lado, como aconteceu com as asas. Então lembrei que ele tinha me tocado por duas vezes na cabana. Seu toque era firme e quente. Agradável.

Todos os traços eram perfeitos e harmônicos. Nada grande ou pequeno demais. Exceto os olhos, imensos, não sabia ainda se verdes ou azuis. Talvez uma mistura de ambos, como a cor do mar na enseada. Turquesa. E a boca, grande também e carnuda. O nariz bem feito, a testa reta, maçãs do rosto não muito proeminentes. Tudo na medida exata. “Perfeito.” - Pensei.

Pescoço alto, ombros largos, braços musculosos, mas não demais. Impressão de força e energia. O peito reto e poderia apostar como haveriam gominhos de músculos próximos ao abdomen.

“Ah, meu Deus, isto não vai bem!" – Fechei os olhos para readquirir equilíbrio antes de prosseguir. Pernas longas e grossas, certamente musculosas, e como os braços, não demais, apenas na medida exata.

“Até os dedos dos pés são bonitos! Estou perdida!” – Suspirei. Voltei o olhar para cima e Adriel estava me observando e sorrindo.

- Já terminou o inventário? – Perguntou. Abaixei novamente os olhos sentindo minhas faces queimarem. Então fiz a única coisa honesta e possível nesta situação: levantei os olhos, sorri abertamente e disse:

- Já. Você é mesmo uma perdição de lindo! – Que se danasse a compostura. Jamais conseguiria resistir a tanta beleza e se ele fosse mesmo um anjo o inferno era líquido e certo para mim.

Ele riu e o som de sua risada era uma música deliciosa.



Texto registrado no Literar

Imagem: montagem minha de Edward e asas de XerStock

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